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Gestão e finanças

Faturamento TISS: guia para consultório que atende convênio

Equipe Doctor System
Publicado em 12 min de leitura
Mãos usando calculadora sobre mesa de madeira com prancheta, caderno, canetas e notebook
Foto: Pavel Danilyuk / Pexels
Resposta rápidaFaturamento TISS é a cobrança dos atendimentos de convênio no padrão eletrônico que a ANS torna obrigatório entre operadoras e prestadores. O consultório registra a guia, agrupa as guias em lote, envia pelo portal ou pela integração da operadora, guarda o protocolo, confere o demonstrativo e recorre das glosas dentro do prazo do contrato. Um sistema ajuda quando gera a guia a partir do atendimento já registrado.

O paciente de convênio foi atendido, saiu satisfeito e a consulta entrou na agenda como realizada. Só que o dinheiro dessa consulta ainda não existe. Ele depende de uma guia preenchida sem erro, de um lote enviado no prazo e de uma operadora que analise e pague.

Em muitos consultórios, essa parte fica para o fim do mês, nas mãos de uma pessoa só, com um portal diferente para cada convênio. O resultado aparece semanas depois, no extrato: valor menor que o esperado e uma lista de glosas que ninguém teve tempo de contestar.

O que é o faturamento TISS e quem precisa seguir?

TISS é a sigla de Troca de Informações na Saúde Suplementar. A ANS define o Padrão TISS como obrigatório para as trocas eletrônicas de dados de atenção à saúde dos beneficiários de planos, entre os agentes da saúde suplementar. Faturar no padrão TISS é cobrar da operadora os atendimentos feitos, usando as guias, os códigos e o formato de arquivo que a ANS padronizou.

A norma que estabelece o padrão é a Resolução Normativa ANS nº 501/2022. Ela inclui os prestadores de serviços de saúde entre os obrigados (art. 4º) e determina que a troca seja eletrônica, na versão vigente (art. 7º). Três pontos dessa resolução interessam diretamente ao consultório:

  • A operadora não pode exigir papel em duplicidade. É vedado exigir o envio em papel do equivalente ao conteúdo já trocado em meio eletrônico (art. 8º, II).
  • A operadora precisa oferecer o canal. Ela deve dispor aos prestadores da sua rede duas tecnologias: portal e integração entre sistemas, chamada de webservice (art. 15, § 2º). Quem escolhe entre as duas é o prestador (art. 15, § 3º).
  • Os códigos são os da TUSS. A Terminologia Unificada da Saúde Suplementar identifica procedimentos e itens assistenciais. Para conferir um código de procedimento, use a consulta gratuita da TUSS.

O padrão é atualizado com frequência. Em outubro de 2026, a página da ANS lista como vigentes o Componente Organizacional na versão 202609 e o Componente de Comunicação na versão 04.03.00. Se o seu sistema ou o portal da operadora recusar um arquivo, a versão é uma das primeiras coisas a conferir.

Quais guias o consultório usa?

Segundo o Componente Organizacional do padrão, o lote de cobrança leva guias de consulta, SP/SADT, resumo de internação, honorários e odontologia. As que mais interessam a um consultório são estas:

Guia Quando usar
Consulta Consulta eletiva em consultório
SP/SADT Serviços profissionais, exames e procedimentos em paciente não internado, inclusive consulta com procedimento
Honorários Honorário do profissional em atendimento a paciente internado
Tratamento Odontológico Atendimento de plano odontológico

Duas regras do mesmo documento evitam discussão com a operadora. A primeira: cada mensagem de lote leva no máximo cem guias de cobrança, todas do mesmo tipo. A segunda: por decisão judicial, a operadora não pode exigir o preenchimento do CID nas guias TISS, em nenhuma circunstância.

Além das guias, o padrão traz dois documentos de retorno que você vai consultar todo mês: o demonstrativo de análise de conta e o demonstrativo de pagamento.

Como funciona o ciclo do faturamento, da recepção ao pagamento?

O faturamento começa antes do atendimento, na recepção. O caminho completo tem oito passos.

  1. Conferir a elegibilidade. Antes de atender, confirme se o beneficiário está ativo e se o plano cobre aquele atendimento. No padrão, a verificação eletrônica de elegibilidade é de implantação opcional, então cada operadora oferece de um jeito.
  2. Pedir autorização quando o contrato exige. A RN nº 503/2022 manda o contrato listar os atos que dependem de autorização, com a rotina e o prazo de resposta (art. 15).
  3. Registrar a guia no dia. Carteirinha, código TUSS, data, profissional executante. Guia preenchida de memória, no fim do mês, tende a sair com mais erros.
  4. Colher a comprovação de presença. A forma varia por operadora: assinatura do beneficiário, código de validação ou biometria. O comprovante presencial em papel segue o que está no contrato.
  5. Montar o lote. Agrupe as guias por convênio e por tipo, respeitando o limite de cem guias.
  6. Enviar e guardar o protocolo. A operadora responde ao lote com um número de protocolo, que comprova o recebimento. Sem protocolo, não há como provar a data de entrega.
  7. Conferir o demonstrativo de análise de conta. Ele deve apresentar todas as guias do lote. Nas guias já analisadas, lista os procedimentos e itens que tiveram glosa.
  8. Recorrer e conciliar. Envie o recurso de glosa dentro do prazo, acompanhe a resposta e compare o demonstrativo de pagamento com o que entrou no banco.

No padrão, cobrança, demonstrativos de retorno e recurso de glosa são processos de troca eletrônica de implantação obrigatória. Se a troca cair, vale o plano de contingência, com formulários fornecidos pela operadora.

O que é glosa e por que ela acontece?

Glosa é o valor que a operadora deixa de pagar, no todo ou em parte, em uma guia cobrada. As fichas técnicas da ANS mencionam dois tipos: glosa administrativa e glosa técnica. Na leitura que usamos aqui, a administrativa nasce de erro de cadastro, de prazo ou de regra do contrato, e a técnica nasce da auditoria do atendimento.

As mensagens de glosa são padronizadas na Tabela 38 da TUSS, o que permite agrupar as glosas por motivo e atacar a causa.

Exemplo de origem Tipo Como prevenir
Carteirinha vencida ou número digitado errado Administrativa Conferir a elegibilidade no dia do atendimento
Procedimento sem autorização prévia Administrativa Manter a lista do que exige autorização em cada convênio
Código TUSS trocado ou fora da tabela contratada Administrativa Cadastrar os códigos de cada contrato uma única vez
Guia enviada fora do prazo Administrativa Fechar lote toda semana, com calendário por convênio
Falta de comprovação de presença Administrativa Colher a assinatura ou a validação antes de o paciente sair
Quantidade ou procedimento questionado pela auditoria Técnica Registrar o atendimento no prontuário no mesmo dia

A tabela traz exemplos do dia a dia, sem ordem de frequência. A lista oficial de motivos é a da Tabela 38, e os motivos que valem para o seu consultório são os previstos no seu contrato.

O que o contrato com a operadora precisa dizer sobre glosa?

A Resolução Normativa ANS nº 503/2022 trata dos contratos escritos entre operadoras e prestadores. Ela não fixa um número de dias para pagar ou para recorrer. O que ela faz é obrigar o contrato a trazer essas regras por escrito:

  • prazos e procedimentos de faturamento e de pagamento (art. 13);
  • as hipóteses em que o prestador pode sofrer glosa (art. 14, I);
  • os prazos para contestar a glosa, para a operadora responder e para pagar quando a glosa é revertida (art. 14, II);
  • prazo de contestação igual ao prazo de resposta da operadora (art. 14, parágrafo único).

A mesma norma veda cláusulas que impeçam o prestador de ter acesso às rotinas de auditoria e às justificativas das glosas, ou de contestá-las (art. 5º, V e VI). Essas duas vedações valem quando o faturamento é feito no padrão TISS vigente (art. 5º, parágrafo único).

Um detalhe para quem é cooperado: a RN nº 503/2022 não se aplica à relação entre a cooperativa e o profissional cooperado (art. 19). Nesse caso, as regras estão no estatuto e nas normas internas da cooperativa.

Na prática, monte uma ficha por convênio com cinco linhas: dia de fechamento, prazo de pagamento, prazo de recurso, procedimentos que pedem autorização e canal de envio. Fixe essa ficha ao lado de quem fatura.

Como medir a glosa do seu consultório?

A ANS mantém o Painel de Indicadores de Glosa, com cinco indicadores por operadora, calculados a partir dos dados do TISS: tempo médio de pagamento, percentual de glosa inicial, percentual de glosa final e dois indicadores de guias sem retorno após 60 dias da cobrança, um por número de guias e outro por valor. A agência avisa, nas fichas técnicas, que não recebe os motivos das glosas e por isso não separa as administrativas das técnicas.

Você pode calcular os mesmos indicadores com os seus números. Esta é uma versão simplificada das fórmulas da ANS, que considera só as guias já fechadas:

  • Glosa inicial (%) = valor glosado na primeira análise ÷ valor total cobrado × 100
  • Glosa final (%) = valor que continuou glosado depois dos recursos ÷ valor total cobrado × 100
  • Tempo médio de pagamento = média de dias entre o protocolo de cobrança e o pagamento
  • Guias sem retorno = guias sem pagamento nem glosa 60 dias depois do protocolo (se o seu contrato prevê prazo maior, isso ainda não é atraso)

Veja um exemplo com números inventados, só para mostrar a conta:

Item Valor
Total cobrado no mês R$ 30.000
Glosado na primeira análise R$ 2.400
Glosa inicial 8%
Recuperado com recurso R$ 1.500
Continuou glosado R$ 900
Glosa final 3%

A diferença entre a glosa inicial e a final mostra quanto do seu recurso deu certo. O que sobra na glosa final é dinheiro de atendimento realizado que não entrou. Se a glosa inicial é alta e quase tudo volta no recurso, o problema está no preenchimento, e o recurso vira retrabalho mensal.

Faça a conta por convênio. O resultado entra na análise de receita por fonte, explicada no guia de gestão financeira do consultório médico.

O que dizem os estudos indexados no PubMed?

Há pouca pesquisa indexada sobre faturamento em consultórios brasileiros. Os estudos abaixo ajudam a dimensionar o tema, com a ressalva de que nenhum mediu um consultório pequeno no Brasil.

  • Brasil, hospital geral do interior de São Paulo, entrevistas de março a junho de 2023. Um estudo qualitativo publicado em 2026 na Revista Gaúcha de Enfermagem ouviu gestores sobre a auditoria como ferramenta de gestão e reuniu 34 incidentes críticos: 41% favoreciam o uso da auditoria e 59% dificultavam. Os gestores ligaram a auditoria à prevenção de glosas e apontaram como obstáculos as falhas de registro no prontuário e as deficiências nos contratos com os planos de saúde (DOI 10.1590/1983-1447.2026.20250095.en). É dado de hospital, e de uma única instituição.
  • Estados Unidos, sistema acadêmico de saúde, entrevistas em 2016 e 2017. Um estudo publicado no JAMA em 2018 estimou que as atividades de cobrança e relacionamento com seguradoras consumiam 13 minutos e US$ 20,49 por consulta de atenção primária, o equivalente a 14,5% da receita profissional desse tipo de consulta (DOI 10.1001/jama.2017.19148).
  • Estados Unidos, ano de 2012. Uma síntese publicada em 2014 na BMC Health Services Research estimou em cerca de US$ 471 bilhões o custo anual das atividades de cobrança e seguro no sistema de saúde americano, dos quais US$ 70 bilhões nos consultórios médicos (DOI 10.1186/s12913-014-0556-7).
  • Estados Unidos, Califórnia. Um estudo publicado em 2005 na Health Affairs (o resumo não informa o ano da coleta) estimou que os consultórios médicos gastavam 14% da receita com atividades de cobrança e seguro (DOI 10.1377/hlthaff.24.6.1629).

Os três estudos americanos descrevem um sistema com regras e custos diferentes dos brasileiros, e os percentuais não se transferem para o seu consultório. Eles mostram apenas que cobrar de um pagador terceiro tem um custo administrativo próprio.

O que avaliar em um sistema de faturamento TISS para clínica?

Com poucas guias por mês e um ou dois convênios, o portal da operadora resolve. A conta muda quando o volume cresce ou quando cada convênio pede um portal diferente. Antes de contratar, leve estas perguntas ao fornecedor:

  • A guia é gerada a partir do atendimento já registrado na agenda, ou preciso digitar tudo de novo?
  • Quais guias o sistema gera: consulta, SP/SADT, honorários, odontologia?
  • O sistema acompanha a versão vigente do padrão TISS? Quem atualiza quando a ANS publica uma nova versão?
  • Consigo cadastrar a tabela de cada convênio, com os códigos TUSS e os valores contratados?
  • O sistema gera o arquivo do lote para envio, ou só imprime a guia? Como o arquivo chega à operadora?
  • Onde eu registro o protocolo, o valor pago e o valor glosado de cada guia?
  • Consigo ver a glosa por convênio e por motivo?

Se o faturamento é só uma das rotinas que você quer organizar, o guia de sistema para clínica médica mostra quais módulos são essenciais e quais dependem de a clínica atender convênio.

Como fazer isso no Doctor System

As guias TISS fazem parte do Doctor System, ao lado da agenda, do prontuário, do financeiro, da emissão de NFS-e, da teleconsulta e da assinatura digital ICP-Brasil. O que ajuda o faturamento começa antes da guia: o cadastro do paciente guarda CPF e data de nascimento e detecta contato duplicado pelo telefone, a agenda exige horário em todas as consultas, retornos e procedimentos, e o prontuário é uma linha do tempo com auditoria de quem alterou o quê. São dados que ajudam a preencher a guia sem retrabalho.

Antes de contar com o módulo para a sua rotina, confira as telas do sistema no tutorial, veja o que o módulo de guias TISS cobre e combine com cada operadora o canal de envio. O sistema é grátis para começar, sem cartão de crédito: veja a apresentação ou crie a conta do consultório e teste com a rotina de uma semana.

Este conteúdo é informativo e não substitui a leitura do seu contrato com cada operadora nem orientação jurídica ou contábil para o caso concreto do seu consultório.

Perguntas frequentes

O que é faturamento TISS?

É a cobrança dos atendimentos feitos a pacientes de plano de saúde no Padrão TISS, a Troca de Informações na Saúde Suplementar. A ANS define o padrão como obrigatório para as trocas eletrônicas de dados entre operadoras e prestadores. Na prática, o consultório preenche a guia do atendimento, agrupa as guias em lotes e envia à operadora pelo portal ou pela integração entre sistemas.

Consultório pequeno é obrigado a usar o padrão TISS?

Sim, se atende plano de saúde. A Resolução Normativa ANS nº 501/2022 inclui os prestadores de serviços de saúde entre os obrigados e determina que a troca seja eletrônica, na versão vigente do padrão. Quem atende só particular não troca dados com operadora e não precisa do TISS.

O que é glosa?

Glosa é o valor que a operadora deixa de pagar, no todo ou em parte, em uma guia cobrada pelo prestador. Pode ter motivo administrativo, como um dado de cadastro errado, ou motivo técnico, ligado à auditoria do atendimento. O demonstrativo de análise de conta mostra os itens glosados, e o prestador pode recorrer.

Qual é o prazo para recorrer de uma glosa?

A ANS não fixa um número de dias. A Resolução Normativa nº 503/2022 manda o contrato entre operadora e prestador trazer os prazos para contestar a glosa, para a operadora responder e para o pagamento quando a glosa é revertida. A mesma norma exige que o prazo de contestação seja igual ao prazo de resposta da operadora. Leia o seu contrato e anote os prazos de cada convênio.

A operadora pode exigir a guia em papel além do envio eletrônico?

Não para o conteúdo que já foi trocado em meio eletrônico: a Resolução Normativa nº 501/2022 proíbe essa exigência. O papel entra no plano de contingência, quando a troca eletrônica é interrompida, e em casos previstos em contrato, como o comprovante presencial assinado pelo beneficiário.

Preciso de um sistema para fazer o faturamento TISS?

Não necessariamente. A operadora deve oferecer um portal onde a guia pode ser digitada. Com poucas guias por mês, o portal resolve. Quando o volume cresce ou o consultório atende vários convênios, digitar em vários portais os dados que já estão na agenda e no cadastro aumenta o retrabalho e o risco de erro, e um sistema que gera a guia a partir do atendimento passa a valer a pena.

Fontes consultadas

  1. Padrão TISS — Troca de Informações na Saúde Suplementar — ANS
  2. Padrão TISS vigente (setembro de 2026) — ANS
  3. Padrão TISS — Componente Organizacional, versão 202609 — ANS
  4. Resolução Normativa ANS nº 501/2022 — estabelece o Padrão TISS
  5. Resolução Normativa ANS nº 503/2022 — contratos entre operadoras e prestadores
  6. Painel de Indicadores de Glosa — ANS
  7. Painel de Glosas: fichas técnicas dos indicadores — ANS
  8. Audit as a hospital management tool: a qualitative analysis — Revista Gaúcha de Enfermagem, 2026 (PubMed)
  9. Administrative Costs Associated With Physician Billing and Insurance-Related Activities at an Academic Health Care System — JAMA, 2018 (PubMed)
  10. Billing and insurance-related administrative costs in United States' health care — BMC Health Services Research, 2014 (PubMed)
  11. The cost of health insurance administration in California — Health Affairs, 2005 (PubMed)