CID-10: o que é, como consultar e como usar no atestado

O paciente volta à recepção com o atestado na mão e uma pergunta: "o que é esse código aqui?". Outro liga no dia seguinte porque o RH da empresa quer "o CID". E a secretária, no meio da manhã, não sabe se pode responder, se precisa chamar o médico ou se aquilo é assunto sigiloso.
O CID aparece em atestado, relatório e prontuário. É uma sigla do dia a dia e, mesmo assim, gera dúvida em toda a equipe: o que o código quer dizer, onde conferir e quando ele pode sair impresso num documento.
Este guia responde essas perguntas com base nas fontes oficiais: a tabela do DATASUS, as regras do Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). No fim, há um checklist para a recepção e um resumo do que muda com a CID-11.
O que é a CID-10?
A CID-10 é a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão. É esse o nome oficial, como explica a apresentação da CID-10 no DATASUS; na prática, todo mundo fala só "CID".
Quem mantém a classificação é a OMS. Segundo a página oficial da OMS sobre a CID, a 10ª revisão foi adotada em maio de 1990 e entrou em vigor em 1º de janeiro de 1993. A ideia é simples: dar o mesmo código ao mesmo diagnóstico em qualquer serviço, para que registros, estatísticas de doenças e de causas de morte possam ser comparados entre lugares e ao longo do tempo. A OMS lembra que esses dados também apoiam pagamento, planejamento de serviços e pesquisa.
No Brasil, o DATASUS, do Ministério da Saúde, publica a tabela em português na versão 2008. O Ministério também divulga atualizações da classificação: antes de faturar ou montar um modelo de documento, confira qual versão o sistema da operadora ou do órgão público usa.
A CID-10 não serve só para doenças. Ela tem códigos para sintomas e sinais sem diagnóstico fechado (capítulo XVIII, letra R), para causas externas e para "fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com os serviços de saúde" (capítulo XXI, letra Z), como consultas de rotina.
Como ler um código da CID-10?
O DATASUS descreve a estrutura em quatro níveis, e o livro-texto de codificação do Ministério da Saúde repete o mesmo esquema. Do maior para o menor:
- Capítulo: reúne vários agrupamentos. São 22 capítulos, numerados em algarismos romanos.
- Agrupamento: um conjunto de categorias com doenças parecidas.
- Categoria: o código de três caracteres, sempre uma letra e dois números (por exemplo, M54).
- Subcategoria: a categoria mais um ponto e um algarismo de .0 a .9 (por exemplo, M54.5). Na tabela do DATASUS, é o código mais detalhado do diagnóstico.
O livro-texto de codificação do Ministério da Saúde resume assim: o 1º caractere é uma letra de A a Z, o 2º e o 3º são dois dígitos de 00 a 99, e o 4º, quando existe, é um dígito de 0 a 9 sempre depois do ponto. Algumas categorias não têm subcategoria. Na prática, a letra aponta o capítulo (algumas letras, como D e H, se dividem entre dois capítulos), e o dígito depois do ponto dá o detalhe. Quando a categoria tem subdivisões, prefira registrar a subcategoria, que é mais específica.
Veja exemplos reais na consulta gratuita: M54.5 (subcategoria), R10 (categoria do capítulo de sintomas e sinais) e F41 (categoria do capítulo de transtornos mentais e comportamentais).
Os 22 capítulos da CID-10
| Capítulo | Faixa de códigos | Assunto |
|---|---|---|
| I | A00–B99 | Algumas doenças infecciosas e parasitárias |
| II | C00–D48 | Neoplasias (tumores) |
| III | D50–D89 | Doenças do sangue e alguns transtornos imunitários |
| IV | E00–E90 | Doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas |
| V | F00–F99 | Transtornos mentais e comportamentais |
| VI | G00–G99 | Doenças do sistema nervoso |
| VII | H00–H59 | Doenças do olho e anexos |
| VIII | H60–H95 | Doenças do ouvido |
| IX | I00–I99 | Doenças do aparelho circulatório |
| X | J00–J99 | Doenças do aparelho respiratório |
| XI | K00–K93 | Doenças do aparelho digestivo |
| XII | L00–L99 | Doenças da pele e do tecido subcutâneo |
| XIII | M00–M99 | Doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo |
| XIV | N00–N99 | Doenças do aparelho geniturinário |
| XV | O00–O99 | Gravidez, parto e puerpério |
| XVI | P00–P96 | Afecções originadas no período perinatal |
| XVII | Q00–Q99 | Malformações congênitas e anomalias cromossômicas |
| XVIII | R00–R99 | Sintomas, sinais e achados anormais |
| XIX | S00–T98 | Lesões, envenenamentos e consequências de causas externas |
| XX | V01–Y98 | Causas externas de morbidade e de mortalidade |
| XXI | Z00–Z99 | Fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com os serviços |
| XXII | U00–U99 | Códigos para propósitos especiais |
A tabela segue a divisão em capítulos da CID-10 publicada pelo DATASUS; os nomes foram encurtados para caber. O nome completo de cada capítulo está na consulta da CID-10.
Onde consultar a CID-10?
A fonte oficial é o DATASUS, que publica a CID-10 em português dividida em três volumes, como descrevem a apresentação do DATASUS e o livro-texto do Ministério da Saúde: o Volume I traz a lista tabular (os códigos), o Volume II traz as regras de uso e de codificação, e o Volume III é o índice alfabético. Para quem codifica com frequência, o Volume II é o manual: é nele que estão as regras para codificar mortalidade e morbidade.
No dia a dia do consultório, o caminho mais rápido é uma busca por código ou por nome. Três cuidados evitam erro:
- Confira o código inteiro. "M54" e "M54.5" não dizem a mesma coisa. A subcategoria é a forma mais precisa.
- Busque pelo termo da classificação, não pelo apelido. Se o nome popular não achar nada, procure pelo capítulo e desça até a categoria.
- Desconfie de tabelas sem fonte. Use uma consulta que diga de onde veio a tabela e qual versão ela reproduz.
O CID pode ir no atestado?
É uma dúvida comum na recepção. A regra está no art. 5º da Resolução CFM 2.381/2024, que normatiza a emissão de documentos médicos e revogou a antiga Resolução CFM 1.658/2002.
Pelo § 3º, o médico só pode fornecer atestado com o diagnóstico, codificado ou não, em três situações:
| Situação | O que significa | O que fazer |
|---|---|---|
| Justa causa | Motivo relevante que justifique revelar o diagnóstico | A resolução não define justa causa; a avaliação cabe ao médico |
| Dever legal | Uma lei obriga a informar | Seguir a norma que obriga |
| Pedido do paciente ou do representante legal | O próprio paciente quer o CID no documento | Escrever a concordância no atestado e registrar no prontuário (§ 4º) |
Fora dessas situações, o atestado sai sem o CID. A resolução não lista o pedido da empresa entre as hipóteses; se alguém alegar dever legal, o médico avalia o caso, se preciso com o jurídico ou o CRM. O atestado continua válido sem o código: pelo § 1º do mesmo artigo, ele é parte da consulta, é direito do paciente e não pode ser cobrado à parte.
A base dessa regra é o sigilo. O Código de Ética Médica, no art. 73, proíbe o médico de revelar o que soube no exercício da profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento por escrito do paciente. A própria Resolução 2.381/2024 lembra que dado de saúde é dado pessoal sensível pela LGPD (Lei 13.709/2018), com hipóteses de tratamento listadas no art. 11. Para as obrigações do consultório com esse tipo de dado, veja o guia Prontuário eletrônico e LGPD.
E no relatório médico circunstanciado? Pelo art. 4º, VII, da mesma resolução, o diagnóstico (CID) só entra quando expressamente autorizado pelo paciente.
A resolução também pede, no art. 2º, § 1º, os dados mínimos de todo documento médico: nome e CRM/UF do médico, RQE quando houver, nome e CPF do paciente quando houver, data de emissão, assinatura qualificada (no documento eletrônico) ou assinatura e carimbo ou número do CRM (no manuscrito), telefone ou e-mail profissional e endereço profissional ou residencial.
Checklist da recepção para CID e atestado
- A equipe sabe que o CID no atestado depende do médico e das três hipóteses do CFM.
- Pedido de CID feito por empresa ou terceiro é levado ao médico, não respondido pelo telefone.
- Quando o paciente pede o CID, a concordância dele fica escrita no atestado e registrada no prontuário.
- A recepção não informa diagnóstico nem código sem orientação do médico.
O que muda com a CID-11?
A CID-11 foi adotada pela 72ª Assembleia Mundial da Saúde em 2019 e entrou em vigor na OMS em 1º de janeiro de 2022, segundo a OMS. Pelo resumo oficial da CID-11, ela é a primeira CID totalmente eletrônica, com cerca de 17 mil categorias diagnósticas, novos capítulos (como doenças do sistema imunológico, transtornos do sono e vigília e condições ligadas à saúde sexual) e códigos de extensão para acrescentar detalhes.
No Brasil, a tradução para o português foi concluída em 2024, e o Ministério da Saúde informa que o início do uso está previsto para janeiro de 2027, conforme a Nota Técnica nº 91/2024. O motivo do prazo é a atualização dos sistemas de informação e a capacitação dos usuários.
Para o consultório, isso quer dizer duas coisas. Hoje, a referência continua sendo a CID-10. E a troca não será só de tabela: a CID-11 tem estrutura e códigos próprios, e a OMS publica tabelas de correspondência entre as duas versões para ajudar na migração. Acompanhe os comunicados do Ministério da Saúde antes de mudar qualquer rotina.
O que dizem os estudos indexados no PubMed?
Os trabalhos abaixo olham a qualidade do registro com CID, não o diagnóstico em si. A maioria é de outros países e de hospitais, e serve como alerta sobre onde o código costuma falhar.
- O detalhe do quarto caractere pesa. Num hospital de referência de Campinas (SP), com 2.823 nascimentos de 2004, a concordância da codificação de malformações nas declarações de nascido vivo foi de 0,77 no código de três caracteres e caiu para 0,55 no de quatro (índice kappa). É um estudo só, de um tipo de registro (Luquetti e Koifman, 2009).
- Um código pode simplesmente faltar. Em 17.380 pacientes de um registro de cateterismo cardíaco do Canadá, a base administrativa trazia o código de obesidade em 2,4% deles, contra 20,3% no registro clínico: a condição foi pouco codificada, mas, quando o código aparecia, estava correto em cerca de dois terços dos casos (Martin et al., 2014).
- Regras simples ajudam a achar inconsistências. Pesquisadores do Canadá criaram, com um painel de 5 médicos e 2 especialistas em classificação, 388 regras de conferência no nível de três caracteres e 275 no de quatro, para checar dados hospitalares recodificados em CID-10 (Peng et al., 2020).
- Método padronizado dá consistência. Num registro de causas de morte da Rússia, um método com dicionário de termos, apoio de banco de dados e dupla codificação por duas pessoas chegou a 70% a 90% de concordância com o procedimento comum nas rubricas de três caracteres, ainda na CID-9 (Startsev et al., 2015).
- Treino ajuda no preenchimento. Em Fiji, estudantes de medicina preencheram declarações de óbito de casos simulados de forma mais completa e precisa depois de usar uma ferramenta de treinamento on-line da OMS, num estudo de antes e depois sem grupo de comparação (Walker et al., 2012).
A lição para o consultório: escolher a subcategoria certa, registrar sempre e ter uma conferência simples evita boa parte dos problemas, inclusive na hora de faturar com convênio. Sobre esse ponto, veja o guia de faturamento TISS.
Como fazer isso no Doctor System?
A consulta da CID-10 do Doctor System é gratuita e não pede cadastro. Ela reproduz a tabela do DATASUS (versão 2008) por capítulo, grupo, categoria e subcategoria: são 22 capítulos e 14.236 categorias e subcategorias, com uma página para cada código.
Dentro do sistema, o prontuário eletrônico guarda a linha do tempo do paciente, com evoluções, anexos e modelos de documentos, e registra quem alterou o quê. Você pode registrar na evolução a concordância do paciente quando ele pede o CID no atestado, como o CFM pede. Uma entrada errada é retirada com motivo e continua guardada no histórico.
O perfil de secretária usa agenda, cadastro e atendimento, mas não lê o prontuário, o que ajuda a manter o diagnóstico longe da recepção. Para testar, crie sua conta grátis, sem cartão de crédito.
Perguntas frequentes
O que significa CID-10?
É a sigla da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão, mantida pela Organização Mundial da Saúde. Ela dá um código padronizado a cada doença, sintoma ou motivo de contato com o serviço de saúde, para que o registro seja o mesmo em qualquer lugar.
Como ler um código da CID-10?
A categoria tem três caracteres: uma letra e dois números, como M54. A subcategoria acrescenta um ponto e mais um algarismo, de .0 a .9, como M54.5, e detalha o diagnóstico. Categorias parecidas formam um agrupamento, e vários agrupamentos formam um dos 22 capítulos, segundo o DATASUS.
O médico pode colocar o CID no atestado?
Só em três casos, pela Resolução CFM 2.381/2024 (art. 5º, § 3º): justa causa, dever legal ou pedido do próprio paciente ou do seu representante legal. Quando o pedido é do paciente, a concordância precisa estar escrita no atestado e registrada no prontuário. Fora disso, o atestado sai sem o diagnóstico.
Onde consultar a CID-10 em português?
A tabela em português é publicada pelo DATASUS, do Ministério da Saúde, na versão 2008. O Doctor System mantém uma consulta gratuita que reproduz essa tabela por capítulo, grupo, categoria e subcategoria, com uma página para cada código.
A CID-10 vai ser substituída pela CID-11?
Sim. A CID-11 foi adotada pela Assembleia Mundial da Saúde em 2019 e está em vigor na OMS desde 1º de janeiro de 2022. No Brasil, o Ministério da Saúde prevê o início do uso em janeiro de 2027, segundo a Nota Técnica nº 91/2024, depois da atualização dos sistemas de informação. Até lá, a CID-10 segue sendo a referência.
No Doctor System: Veja o prontuário em linha do tempo do Doctor System.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde — Codificação da causa básica do óbito, CID-10: livro-texto (2024), estrutura dos códigos e volumes
- Resolução CFM nº 2.381/2024 — emissão de documentos médicos
- Código de Ética Médica — Resolução CFM nº 2.217/2018 (art. 73)
- OMS — International Classification of Diseases (ICD)
- OMS — ICD-11 Fact Sheet
- Ministério da Saúde — 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças será implementada no Brasil até 2027
- PubMed — Luquetti e Koifman, 2009: qualidade do registro com CID-10 em declarações de nascido vivo em Campinas
- PubMed — Peng et al., 2020: regras de qualidade para dados codificados em CID-10 no Canadá
- PubMed — Martin et al., 2014: precisão da codificação em dados administrativos hospitalares no Canadá
- PubMed — Startsev et al., 2015: métodos para garantir a qualidade da codificação na Rússia
- PubMed — Walker et al., 2012: ferramenta da OMS para treinar médicos no preenchimento da declaração de óbito

