CID-11: o que muda em relação à CID-10 e quando passa a valer

A secretária vê no grupo de colegas que "o CID vai mudar" e pergunta ao médico se precisa refazer os modelos de atestado. Um representante comenta que "a CID-11 já está valendo". E o convênio continua pedindo o código no formato de sempre, com uma letra e dois números.
A confusão é compreensível. A CID-11 já está em vigor na Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2022, mas no Brasil a troca ainda não aconteceu. E ela não é só uma tabela nova: muda o formato do código, a ordem dos capítulos e a forma de registrar detalhes.
Este guia explica o que muda de verdade, o que o Ministério da Saúde já publicou sobre a data e o que o consultório pode fazer agora, sem se adiantar e sem ser pego de surpresa. Tudo com base em fontes oficiais: OMS, Ministério da Saúde e Conselho Federal de Medicina (CFM).
O que é a CID-11?
A CID-11 é a 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças, mantida pela OMS. Segundo a página oficial da OMS, ela foi adotada pela 72ª Assembleia Mundial da Saúde em maio de 2019 e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022.
A ficha informativa da OMS em português resume as novidades: pela primeira vez a CID é totalmente eletrônica, com acesso a 17.000 categorias de diagnóstico e mais de 100.000 termos de índice; a busca interpreta mais de 1,6 milhão de termos. Ela funciona on-line ou off-line e é gratuita para uso em todos os países.
Em maio de 2024, segundo a OMS, 132 Estados-membros e áreas estavam em alguma fase de implantação, e 14 já coletavam ou informavam dados com a CID-11. O português está entre as dez línguas já disponíveis.
Se você precisa revisar como funciona a versão atual, veja o guia CID-10: o que é, como consultar e como usar no atestado.
Quando a CID-11 passa a valer no Brasil?
O Ministério da Saúde informa que a implementação está prevista para 1º de janeiro de 2027. A data vem da Nota Técnica nº 91/2024 (CGIAE/DAENT/SVSA/MS), e o motivo do prazo é a atualização dos sistemas de informação e a capacitação dos usuários. A página foi atualizada pelo Ministério em 26 de outubro de 2026 e mantém essa previsão.
Em notícia de fevereiro de 2025, o CFM detalhou o que o Ministério explicou:
- A CID-11 começa a ser disponibilizada nos sistemas de vigilância em saúde a partir de janeiro de 2027.
- A transição será gradual e controlada, para preservar as séries históricas de dados.
- A meta é ter todos os aspectos da CID-11 integrados até 2027 ou 2028.
- A OMS recomenda que a versão anterior esteja atualizada por pelo menos dois anos antes da troca; o Ministério previa concluir a atualização da última versão da CID-10 no fim de 2025.
Repare no que o cronograma diz e no que ele não diz. Ele fala dos sistemas de vigilância do Ministério. As fontes oficiais consultadas para este texto não trazem data para a troca em guias de convênio, atestados ou sistemas de operadoras. Por isso, a regra prática é: até um comunicado oficial dizer o contrário, a CID-10 segue sendo a referência no consultório.
Quadro de situação (conferido em 29/10/2026)
| Item | Situação | Fonte |
|---|---|---|
| CID-11 na OMS | Em vigor desde 1º/1/2022 | OMS |
| Tradução oficial em português | Concluída em 2024 | Ministério da Saúde |
| Uso no Brasil (sistemas de vigilância) | Previsto para janeiro de 2027, de forma gradual | Nota Técnica nº 91/2024 |
| Integração completa | Meta de 2027 ou 2028 | CFM, citando o Ministério |
| Guias de convênio, atestados e operadoras | Sem data nas fontes oficiais consultadas; até haver comunicado, a prática é seguir na CID-10 | Conferir comunicados oficiais |
O que muda em relação à CID-10?
A mudança mais visível é o código. Pelo guia de referência da CID-11, os códigos são alfanuméricos e vão de 1A00.00 a ZZ9Z.ZZ, com estas regras:
- O primeiro caractere indica o capítulo e pode ser número ou letra. Exemplo do próprio guia: 1A00 é do capítulo 01, e BA00 é do capítulo 11.
- O segundo caractere é sempre uma letra. É isso que diferencia um código da CID-11 de um da CID-10 só de olhar.
- O terceiro caractere é sempre um número, para evitar que o código forme palavras.
- As letras O e I não são usadas, para não confundir com 0 e 1.
- Códigos que começam com X são extensões, que acrescentam detalhe a outro código.
- Final Y é "outro especificado" e final Z é "não especificado".
O mesmo diagnóstico muda de cara. A cólera, por exemplo, é A00 na CID-10, pela tabela do DATASUS, e 1A00 na CID-11, como mostra o guia de referência da OMS.
Tabela comparativa
| Ponto | CID-10 | CID-11 |
|---|---|---|
| Em vigor na OMS (tabela histórica do guia de referência) | Desde 1º/1/1993 | Desde 1º/1/2022 |
| Formato do código | Letra + 2 números, com dígito após o ponto (ex.: A00.0) | Alfanumérico de 1A00.00 a ZZ9Z.ZZ, sempre com letra na 2ª posição |
| Capítulos | 22 | 26 capítulos de códigos principais, mais uma seção de funcionalidade e uma de extensões |
| Detalhe extra | Subcategoria após o ponto | Códigos de extensão e combinação de códigos (pós-coordenação) |
| Formato | Livro em três volumes e tabelas | Totalmente eletrônica, com navegador oficial e busca |
| Uso no Brasil hoje | Referência atual | Previsto para janeiro de 2027 |
Capítulos novos e numeração diferente
O guia de referência lista cinco capítulos novos: 03 (doenças do sangue e órgãos hematopoéticos), 04 (doenças do sistema imunológico, agora separadas do sangue), 07 (transtornos do sono e vigília), 17 (condições relacionadas à saúde sexual) e 26 (capítulo suplementar de medicina tradicional). Com isso, a numeração dos capítulos mudou. Quem sabe de cor que, na CID-10, "F é saúde mental" e "M é osteomuscular" vai precisar reaprender o mapa: na CID-11, saúde mental é o capítulo 06 e osteomuscular é o capítulo 15, segundo o guia de referência.
Pós-coordenação: códigos que se combinam
A CID-11 permite juntar dois ou mais códigos para descrever uma situação com mais precisão. O guia chama esse conjunto de "cluster", ligado por barra (/) ou pelo "e comercial" (&). Os códigos de extensão (os que começam com X) servem para detalhes como anatomia, gravidade ou se a condição estava presente na admissão, e não podem ser usados sozinhos nas estatísticas. Na prática, um mesmo atendimento pode gerar um código mais longo do que o de hoje, e campos de sistemas e formulários feitos para quatro caracteres podem não comportar isso.
O que muda para o consultório?
Para o consultório pequeno, o impacto é de rotina e de cadastro, não de medicina. Os pontos de atenção são estes:
- Modelos de documentos. Atestados, relatórios e declarações com campo de CID vão precisar aceitar o novo formato quando a troca chegar à sua rotina.
- Convênios. As guias de convênio usam o código que a operadora aceita. Antes de mudar qualquer coisa no faturamento, espere a orientação oficial e confirme com cada operadora. Para entender como uma guia é conferida, veja o guia de faturamento TISS.
- Histórico do paciente. Registros antigos ficam em CID-10. Durante um bom tempo, a equipe vai conviver com as duas versões no mesmo prontuário.
- Equipe. A OMS diz que a CID-11 exige menos treinamento que a anterior, mas a mudança de formato e de capítulos pede uma conversa com quem preenche documentos e cadastros.
E a regra do atestado? Ela não muda com a versão. A Resolução CFM nº 2.381/2024 fala do diagnóstico "codificado ou não": ele só vai no atestado por justa causa, dever legal ou pedido do paciente ou do representante legal. Dado de saúde segue sendo dado sensível pela LGPD; para as obrigações do consultório, veja Prontuário eletrônico e LGPD.
O que fazer agora? Passo a passo até 2027
- Não troque nada por conta própria. A CID-10 segue como referência. Código em CID-11 numa guia ou num documento hoje pode ser recusado pelo sistema do outro lado.
- Liste onde o CID aparece no consultório: modelos de atestado e relatório, cadastro do paciente, guias de convênio e planilhas.
- Confira o tamanho dos campos. Um código da CID-11 pode ter mais caracteres e combinações com barra ou "&".
- Apresente o novo formato à equipe. Mostre que o segundo caractere é sempre letra: é o jeito mais rápido de saber qual versão está escrita num documento.
- Explore o navegador oficial. O navegador da CID-11 em português é gratuito e mostra a estrutura nova. O Ministério cita também o curso on-line "Manual de Capacitação da CID-11", da Organização Pan-Americana da Saúde.
- Pergunte ao fornecedor do seu sistema como ele vai tratar a CID-11 e o histórico em CID-10.
- Acompanhe os comunicados do Ministério da Saúde e das operadoras com quem você trabalha, a partir do fim de 2026.
O que dizem os estudos indexados no PubMed?
Os trabalhos abaixo tratam de codificação e de transição entre versões, não de diagnóstico. Todos são de outros países e, em sua maioria, de hospitais; servem como alerta sobre o que costuma dar trabalho na troca.
- Piloto em hospital público do Kuwait (publicado em 2022). No primeiro piloto da CID-11 para registro de altas hospitalares, os médicos relataram satisfação com a experiência. Ajudaram o apoio da liderança, uma equipe multidisciplinar, treinamento feito para médicos e suporte presencial; os desafios foram problemas de informática e o engajamento dos médicos no treinamento (Ibrahim et al., 2022).
- A troca de versão pode mexer nos números. Pesquisadores de Montreal (Canadá) usaram uma base hospitalar americana (MIMIC-IV) e tabelas de correspondência para simular a passagem para a CID-11. A simulação, publicada em 2024, indicou que a troca pode alterar a distribuição dos pacientes nos índices de comorbidade de Charlson e de Elixhauser e o peso de algumas categorias, o que afeta a comparação entre dados antigos e novos (Nikiema et al., 2024).
- Codificadores já trabalham com dados em CID-11. Em Calgary (Canadá), seis codificadores profissionais revisaram, entre 2016 e 2017, prontuários de internação de três hospitais para um banco de dados em CID-11. Em 2.250 prontuários analisados, só 34 (1,51%) tinham divergência entre "motivo da internação" e "condição que mais consumiu recursos". Ou seja, as duas formas de definir a condição principal quase sempre coincidiram; o estudo não mede a dificuldade da transição (Wiebe et al., 2021).
- A precisão melhorou com o tempo de uso na troca anterior. Num centro acadêmico dos Estados Unidos, com 600 pacientes adultos com retinopatia diabética, a concordância entre o código e o registro do prontuário foi de 66,5% na CID-9 (2014-2015), 78,5% no início da CID-10 (2015-2016) e 83,3% em 2018-2019. É um único serviço e um único grupo de diagnósticos, mas sugere que o começo de uma transição pede conferência redobrada (Cai et al., 2020).
Em conjunto, os estudos apontam pontos de atenção em sistemas, treinamento e comparação com o histórico. Organizar-se antes tende a reduzir surpresas.
Como fazer isso no Doctor System?
Enquanto a CID-10 for a referência, a consulta da CID-10 do Doctor System ajuda a equipe a conferir códigos: é gratuita, não pede cadastro e reproduz a tabela do DATASUS (versão 2008), com 22 capítulos, 14.236 categorias e subcategorias e uma página para cada código.
Dentro do sistema, o prontuário eletrônico guarda a linha do tempo do paciente, com evoluções, anexos e modelos de documentos, e registra quem alterou o quê. O histórico não se perde: uma entrada errada é retirada com motivo e continua guardada. A consulta gratuita do Doctor System é da CID-10; a CID-11 ainda não está nela. O perfil de secretária usa agenda, cadastro e atendimento, mas não lê o prontuário.
Para testar na sua rotina, crie sua conta grátis, sem cartão de crédito.
Perguntas frequentes
Quando a CID-11 passa a valer no Brasil?
O Ministério da Saúde prevê o início do uso em janeiro de 2027, conforme a Nota Técnica nº 91/2024, com entrada gradual nos sistemas de vigilância em saúde. Até haver comunicado oficial com outra orientação, siga na CID-10. Datas para convênios, atestados e outros sistemas devem ser conferidas nos comunicados oficiais de cada órgão.
Qual a diferença entre o código da CID-10 e o da CID-11?
Na CID-10, o código tem uma letra e dois números, mais um dígito depois do ponto, como A00.0. Na CID-11, o código é alfanumérico e vai de 1A00.00 a ZZ9Z.ZZ: o primeiro caractere indica o capítulo e o segundo é sempre uma letra, justamente para não confundir com a CID-10, segundo o guia de referência da OMS.
Preciso trocar os códigos do consultório agora?
Não. Hoje a referência no Brasil continua sendo a CID-10, e trocar por conta própria pode gerar guia e documento com código que o sistema do outro lado ainda não aceita. O melhor é preparar a equipe, revisar modelos de documentos e acompanhar os comunicados do Ministério da Saúde e das operadoras.
A CID-11 tem tradução oficial em português?
Sim. O Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde concluíram a tradução para o português em 2024, e ela está disponível na plataforma oficial da OMS. Foi a primeira vez que uma tradução da CID em português entrou nessa plataforma.
A regra do CID no atestado muda com a CID-11?
A regra do CFM não depende da versão da classificação. Pela Resolução CFM nº 2.381/2024, o diagnóstico, codificado ou não, só vai no atestado por justa causa, dever legal ou pedido do paciente ou do representante legal, com a concordância escrita no documento e registrada no prontuário.
No Doctor System: Veja o prontuário em linha do tempo do Doctor System.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde — 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças será implementada no Brasil até 2027
- CFM — CID-11: Ministério da Saúde atualiza cronograma para utilização no Brasil
- OMS — International Classification of Diseases (ICD)
- OMS — CID-11: ficha informativa em português
- OMS — ICD-11 Reference Guide (estrutura dos códigos e capítulos)
- OMS — Navegador da CID-11 em português
- Resolução CFM nº 2.381/2024 — emissão de documentos médicos
- PubMed — Ibrahim et al., 2022: piloto da CID-11 em internações no Kuwait
- PubMed — Nikiema et al., 2024: efeito da transição para a CID-11 em índices de comorbidade
- PubMed — Wiebe et al., 2021: concordância da condição principal em dados de internação codificados em CID-11 no Canadá
- PubMed — Cai et al., 2020: precisão da codificação na transição da CID-9 para a CID-10 nos Estados Unidos

